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A História do Hip Hop e da Dança de Rua em Codó - MA

A Dança da Resistência: A História do Hip Hop e da Dança de Rua em Codó - MA

Registros históricos por Klaylton Fernando (Bboy Guil)

Nas terras quentes de Codó, no interior do Maranhão, a cultura Hip Hop encontrou solo fértil para brotar, resistir e se transformar em uma das maiores forças de expressão juvenil da região. Embora a cultura Hip Hop global seja sustentada por seus quatro elementos fundamentais — o DJ, o MC (Rap), o Graffiti e o Break (dança de rua) —, em Codó a história se escreveu com passos marcantes e acrobacias no chão. Desde a chegada desse movimento ao município, o elemento que primeiro se destacou com vigor e conquistou as praças, escolas e o imaginário da juventude codoense foi a Dança de Rua (Breaking).

Este documento reconstrói a trajetória dessa cena cultural, tendo como fio condutor a história da Free Life Crew (originalmente chamada de Free Life Break), grupo pioneiro responsável por articular os primeiros grandes eventos, oficinas sociais e intercâmbios que consolidaram a cultura urbana em Codó e região.

1. A Gênese da Free Life Crew (2003)

A história do breaking em Codó tem uma data de nascimento precisa: 8 de outubro de 2003. Foi nesse dia que o Bboy Alberto (conhecido na cena como Bboy Canela) reuniu um grupo de jovens locais determinados a aprender aquela dança dinâmica e desafiadora que viam em vídeos e na mídia.

Nos primeiros meses, os treinos eram marcados pelo esforço físico autodidata. Os jovens buscavam decifrar e replicar os movimentos clássicos do breaking: os passos verticais de entrada (top rock), os giros e movimentos de solo com chutes ao ar (footwork), as acrobacias de impacto (powermoves) e as paradas de equilíbrio congeladas no tempo (freezes).

O grupo encontrou sua verdadeira vocação e a certeza de que o movimento precisava continuar após a primeira apresentação pública. O palco foi o salão paroquial da Igreja de São Francisco, em Codó. Ao verem a plateia ir ao delírio com as suas coreografias e acrobacias, os jovens dançarinos perceberam o impacto social da sua arte.

A Formação Pioneira

A equipe que ergueu o movimento e enfrentou as primeiras intempéries foi composta pelos bboys:

  • Bboy Canela (Alberto Pontes) — Fundador e coreógrafo do grupo;
  • Bboy Guil (Klaylton Fernando) — Dançarino, idealizador e administrador do blog oficial da crew;
  • Bboy Marcos (Marcos Move);
  • Bboy Daniel (Daniel P-Lock / Duck);
  • Bboy Wannison (Mudinho / Mudo Black).
  • Outros integrantes da fase inicial: Marcos, Daniel, Ciele e Boka.

"FREE LIFE BREAK é um grupo de dança de rua de Codó-MA, que leva a Cultura HIP HOP para a galera que gosta e curti os movimentos dessa dança incrível, o Break. [...] atuando desde 2003 esta crew já desenvolveu vários trabalho e representou a Dança em diversas cidades do Maranhão e até mesmo em outros estados."

O início foi marcado por severas dificuldades estruturais. Sem um local fixo de ensaios, a crew precisava improvisar espaços, alternando entre locais emprestados e treinos diretamente na rua. Além disso, a complexidade e exigência física dos treinos de breaking geravam uma alta rotatividade: muitos jovens se inscreviam para aprender, mas poucos suportavam a disciplina exigida para dominar as técnicas e as bases. A persistência do núcleo de veteranos foi o que manteve o Hip Hop vivo em Codó durante os primeiros anos.

2. Arte, Educação e Ação Social (2009-2011)

Longe de se limitar às rodas de dança (cyphers) e às competições, a Free Life Crew sempre enxergou o breaking como uma ferramenta pedagógica e de transformação social. A partir de 2009, o grupo expandiu substancialmente a sua atuação comunitária, retirando centenas de jovens da ociosidade e da vulnerabilidade social.

O Impacto do Projovem Codó (2009)

Em outubro de 2009, o Bboy Canela (então com 25 anos) assumiu o papel de instrutor de dança de rua no programa municipal Projovem Codó. Ministrando oficinas nos polos do Codó Novo e do Centro, Canela passou a coordenar aulas para mais de 500 alunos cadastrados. As oficinas representaram, para muitos jovens da periferia, o primeiro contato estruturado com a arte e com a disciplina corporal do breaking, consolidando a dança de rua como uma alternativa saudável contra a criminalidade e o uso de drogas.

A Entrada Feminina: Bgirl Cielle (2009)

Historicamente dominado por homens, o breaking codoense deu um passo importante em direção à inclusão de gênero em setembro de 2009, com a integração oficial da Bgirl Cielle à crew. A chegada de Cielle simbolizou a quebra de barreiras e serviu de incentivo para que outras meninas começassem a frequentar as rodas de dança e treinar os movimentos de congelamento e rotação.

A Rede de Proteção Social e o Desfile de 7 de Setembro (2011)

Em 15 de fevereiro de 2011, a Free Life Crew representou a classe artística de dança de rua na reunião de implantação da Rede de Proteção Social à Criança e Juventude de Codó, convocada pelo promotor de Justiça Dr. Elenilton. O grupo sentou-se ao lado de entidades tradicionais como o Conselho Tutelar, o Instituto Maná e a PLAN para debater a aplicação de "Justiça Restaurativa Juvenil" através do direito ao lazer e do resgate de jovens em situação de rua.

Essa articulação comunitária atingiu o seu ápice estético em 7 de setembro de 2011. Durante o tradicional Desfile da Independência, o Bboy Canela, através do programa federal Mais Educação, levou para a avenida um pelotão inédito composto por crianças de 5 a 8 anos da Escola Binerval Cruz dançando breaking.

A apresentação foi um marco histórico. Pais se emocionaram nas calçadas e figuras públicas, incluindo o então prefeito Zito Rolim, aplaudiram de pé. A repercussão nas emissoras locais de televisão foi imensa nos dias seguintes, servindo como uma importante vitória contra o preconceito social que frequentemente marginalizava a cultura de rua:

"Mais uma vez a dança de rua foi vista por muitos de uma forma diferente, sem preconceito por parte de muitos que ainda não conhecem esta arte. O trabalho que o Bboy Canela desenvolve com estas crianças mostra o quanto ela pode ser usada para atrair os jovens a praticar uma dança no qual transmite muita técnica e conhecimento, trazendo para a vida dos praticantes uma ideologia seguida de muito respeito e disciplina."

3. O Projeto "Hip Hop do Sertão" e a Integração dos Quatro Elementos (2011)

Apesar de o breaking ser a manifestação predominante, o sonho dos ativistas locais era unificar e fortalecer os demais pilares da cultura Hip Hop em Codó. Em julho de 2011, esse sonho ganhou forma com o lançamento do Projeto Hip Hop do Sertão, idealizado pelo rapper Mano Robson (líder do grupo de rap Tiroteio Verbal) em parceria direta com a Free Life Crew.

O projeto consistiu em uma ampla rede de oficinas formativas gratuitas destinadas à profissionalização e fomento dos quatro elementos na cidade, dividindo-se entre os seguintes eixos:

  • Rap (Música/Letra): Oficinas ministradas pelo rapper Chinha (membro do Tiroteio Verbal).
  • Break (Dança): Workshops técnicos ministrados pelo Bboy Canela e pela equipe da Free Life Crew.
  • Graffiti (Artes Visuais): Oficinas de artes plásticas urbanas conduzidas pelo grafiteiro Guto (Pinto 07), artista de vasta experiência com murais pintados no Maranhão e em São Paulo.
  • DJ (Sonoplastia/Produção): Oficinas de batidas e mixagem com o DJ Petecão (vindo de Teresina - PI).
  • Inclusão Digital: Cursos de informática básica e avançada oferecidos aos jovens na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Codó.

O Primeiro Graffiti de Rua de Codó (17 de Abril de 2011)

Antes mesmo do lançamento formal das oficinas do projeto, a necessidade de apresentar o graffiti à população codoense gerou uma intervenção histórica em 17 de abril de 2011 (com desdobramentos de registros oficiais em maio do mesmo ano). Com a autorização e cessão do muro do empresário Ricardo Archer, a Free Life Crew e o grafiteiro Guto Pinto 07 realizaram a pintura de um grande painel retratando "O Poder do Hip Hop".

Para atrair o público e desmistificar a associação errônea entre graffiti e pichação vandálica, os bboys da crew montaram uma roda de breaking no meio da rua enquanto as latas de spray coloriam o muro. A intervenção artística parou o trânsito da cidade:

"Nesse último dia 17 de abril de 2011 a equipe Free Life Crew junto com o grafiteiro Guto do Pinto 7... fizeram um graffiti retratando o Poder do Hip Hop na cidade de Codó. [...] 'Viemos para mostrar que graffiti não é pichação, pois muitos compreendem que pichação seja graffiti, e isso é um equívoco', cita Alberto, conhecido como Bboy Canela... Com esse marco muitas pessoas já disseram que este foi o primeiro graffiti de rua realizado em Codó."

4. Circuito de Batalhas, Conquistas e Intercâmbio Regional

A evolução técnica dos bboys codoenses foi testada nas arenas de batalha de todo o Nordeste. Sem o apoio financeiro de órgãos governamentais, os integrantes faziam cotizações e viajavam longas horas em estradas precárias para representar Codó nas principais competições maranhenses e piauienses.

Principais Conquistas

  • Batalha Difusora (2009): O primeiro grande título intermunicipal registrado pela Free Life Crew em Caxias - MA. A vitória estabeleceu o grupo como uma força competitiva respeitada no leste maranhense.
  • Batalha BRADAN (Brasil Break Dance) em Coroatá (3 de julho de 2010): Realizado sob os comandos sonoros do lendário DJ Astrogildo, o evento coroou a dupla codoense Marcos Move e Mudo Black como os grandes campeões de breaking do torneio. A vitória garantiu uma premiação financeira, troféus e a classificação para a grande etapa estadual do BRADAN, sediada na cidade de Balsas - MA.
  • 1ª Batalha de Bboys em Coroatá (1 de outubro de 2011): Organizada por Alex Poppin com júri especializado (Bboy John de Caxias, Beat Street e Bboy Joel de Teresina), a batalha reuniu as melhores crews do estado. A Free Life Crew alcançou a finalíssima, consagrando-se como vice-campeã (2º lugar) após enfrentar a equipe Marabreak Elite de São Luís.
  • 4ª Batalha Difusora em Caxias (10 de setembro de 2011): O grupo participou de um torneio acirrado contra 11 equipes do Maranhão e Piauí. Embora tenham caído nas semifinais, a viagem proporcionou um valioso intercâmbio de experiências com referências do breaking nacional, como os Bboys Viny e Fumaça (da MaraBreak Crew), que na época se preparavam para disputar o mundial Battle of the Year na França.

A Cultura do Intercâmbio

Com o objetivo de evitar o isolamento artístico e manter-se atualizados com as novas técnicas globais de dança, as viagens a Caxias e Teresina eram constantes. O grupo organizava caravanas frequentes (como a viagem realizada de 5 a 7 de agosto de 2011 que reuniu os bboys Guil, Marcos, Canela, Daniel, Boca e Geovane) para treinar coletivamente com dançarinos da região dos Cocais.

Da mesma forma, a Free Life Crew atuava de forma voluntária multiplicando o conhecimento nas cidades menores: aos finais de semana, Bboy Canela e seus parceiros viajavam até Timbiras - MA para ministrar oficinas gratuitas de breaking para o recém-fundado grupo local liderado pelo Bboy Fernando, fortalecendo a juventude timbirense.

5. A Nova Geração e as Batalhas da Avenida (2011)

O ano de 2011 marcou uma transição crucial para a Free Life Crew. O grupo de veteranos, ciente da importância da renovação do movimento, começou a colher os frutos das oficinas sociais. Uma nova leva de jovens adolescentes de 12 a 18 anos passou a integrar os treinos diários com dedicação integral, resistindo à pressão da exaustão física da dança.

Os Novos Integrantes

Os novos bboys que entraram para a caminhada foram: Geovane (Geo), Flanelon, Jardielson, Wesley, Onofre e Pissiquis.

Entre todos, o maior destaque técnico foi o prodígio Bboy Geovane (Geo). Tendo iniciado nos treinos no início de 2011 com apenas 14 anos, Geo chamou a atenção por sua extraordinária musicalidade e feeling para traduzir as batidas da música nos passos rápidos do top rock e do footwork:

"Geo, o mais novo membro da crew, tem se destacado entre uma nova geração de bboys do nosso estado... Seu estilo esbanja um grau superior de musicalidade, sabendo desfrutar cada beat da música. Seu estilo demonstra muita subjetividade, deixando o público encantado com tantos atributos inseridos ao Footwork e Top Rock..."

Dinâmicas de Estímulo: Batalhas Internas e Semanais

Para acelerar o desenvolvimento técnico dos novatos, a coordenação da Free Life Crew criou duas importantes dinâmicas em 2011:

1. Batalhas Internas Mensais: A partir de 21 de setembro de 2011, o grupo passou a organizar batalhas em sua própria sede (no Sindicato dos Trabalhadores Rurais). Os próprios bboys veteranos (Bboy Boca, Canela e Geovane) atuavam como jurados. Havia uma cotização de valores simbólicos em dinheiro por membro para compor o prêmio em dinheiro para o vencedor, estimulando a competitividade saudável e divertida. A primeira edição desse formato (Seven 2 Smoke) foi vencida por Bboy Geovane (Geo) em 2 de março de 2011, e as batalhas se repetiram nos meses subsequentes.

2. As Freestyles de Quinta-feira na Avenida: Iniciadas em 6 de outubro de 2011, as rodas de dança públicas ocorriam todas as quintas-feiras a partir das 19:00 na Avenida 1º de Maio, na chamada "Arena do Bboy", localizada exatamente em frente à Art Vídeo Locadora. Equipados com uma aparelhagem de som básica, luz e chapas de duratex estendidas sobre o asfalto, os bboys ocupavam o espaço urbano, realizavam competições rápidas (com prêmios úteis como cotoveleiras e joelheiras para proteção nos treinos) e convidavam a população para assistir, atraindo inclusive crews visitantes de Caxias, como ocorreu no intercâmbio de 20 de outubro de 2011.

6. Resistência e o Desafio do Espaço Físico: A Ida para o Centro de Cultura

O maior teste de resiliência da Free Life Crew ocorreu em 17 de outubro de 2011. Após meses treinando de forma estável em uma das salas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Codó (espaço compartilhado pacificamente com um grupo de capoeira), o grupo foi surpreendido pela administração do local. O prédio passaria por uma ampla reforma física para instalação de novo piso, forro de teto e ar-condicionado, e a sala ocupada seria readequada para outros fins burocráticos.

O grupo se viu desabrigado exatamente no período em que se preparava para competições de fim de ano. Sem recursos, a crew fez apelos públicos através das redes e da imprensa para conseguir um novo teto:

"O problema veio à tona quando um dos administradores do local nos afirmou que o local não estava mais disponível para nós treinarmos... A notícia chegou em má hora, pois não contávamos com este imprevisto, já que o grupo estava se organizando para participar de mais batalhas de breaking com o objetivo de levar o nome da nossa cidade."

Diante do imprevisto e da ausência imediata de apoio governamental direto, os dançarinos precisaram se reorganizar de forma independente. Como solução emergencial para que os treinos não cessassem e a nova geração não desanimasse, a Free Life Crew transferiu as suas atividades diárias e ensaios para o Centro de Cultura de Codó, localizado no prédio histórico da antiga rodoviária da cidade.

A transição para o Centro de Cultura representou a ressignificação de um espaço público e geográfico marcante de Codó. A antiga rodoviária, antes associada ao trânsito de passageiros e áreas de ociosidade, transformou-se no quartel-general da dança de rua codoense, onde o eco das batidas do breakbeat e as manobras no chão garantiram a sobrevivência do movimento Hip Hop.

Conclusão: O Legado do Movimento Codoense

A história da cultura Hip Hop e da dança de rua em Codó - MA é uma narrativa de resistência, paixão e dedicação juvenil. O blog originalmente estruturado por Klaylton Fernando (Bboy Guil) e a trajetória da Free Life Crew servem como prova documental de que, mesmo diante do isolamento geográfico e da falta de recursos financeiros, a arte de rua possui a força necessária para educar, reabilitar e criar pontes de amizade e cidadania por todo o Maranhão.

O breaking de Codó não foi apenas uma dança de giros rápidos e freezes acrobáticos: foi uma declaração de existência e dignidade de uma juventude que fez das calçadas da Avenida 1º de Maio e do concreto do Centro de Cultura os seus maiores palcos de vitória.

© 2026 Free Life Crew. Codó - MA. Desenvolvido a partir das memórias de Klaylton Fernando (Bboy Guil).

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