Em 1891, o canadense James Naismith, professor de educação física da cidade de Springfield, resolveu criar uma atividade em recinto fechado para seus alunos, já que era inverno, nevava muito e não havia como exercitar os estudantes. Pegou duas cestas de pêssego, retirou o fundo e fixou-as no alto de duas estacas. O objetivo, acertar a bola nas cestas. Estava criado o basquete. Mas em 1927, ex-jogadores de basquete do Wendell Phillips High School decidiram montar um time, o Globetrotters, com o objetivo de provar que os negros eram melhores que os brancos. Na época, as ligas nos EUA não permitiam jogadores de cor. Ganharam fama. Em 1939, já com o nome Harlem Globetrotters, introduziram as palhaçadas, num jogo de uma liga semi-profissional, quando venciam por 112 a 5. Viraram ícones do basquete-arte. Eram o puro espetáculo.
Inspirados neles, em 1950, os meninos das comunidades negras começaram a jogar um basquete cujas regras eram flexíveis e permitiam o malabarismo. Nasceu o street basketball, aqui, o basquete de rua, que chegou ao Brasil há quase duas décadas, mas agora ganha força e cresce avassaladoramente. Não é diferente em Belo Horizonte e na Grande BH, onde virou mania. O esporte se une à música, o rap, e à dança.
Eles são irreverentes, malabaristas no sentido amplo da palavra. O anúncio dos jogos ou peladas é feito no boca a boca, mas apesar disso conseguem lotar quadras. Ter apelido é sinal de respeito, de que o jogador é bom. Assim, Adailton virou Chapoca; Leonardo é Zé Leleu; Léo é Zoreia; Adriano é Driu. O que ninguém gosta é de ter no time um loloso, ou seja, quem é ruim de bola. Essa é a turma da Praça da Glória, em Contagem, que sediou o classificatório para o Brasileiro, em setembro, no Rio. Os campeões foram Os Robervais, de Santa Luzia, que na final derrotaram o Uii.
ORGANIZAÇÃO O esporte mostra uma organização raramente vista em muitas modalidades e isso se deve à Central Única das Favelas (Cufa). “Procuramos ver qual o esporte preferido do pessoal e a pesquisa apontou o basquete de rua. A partir daí, passamos a organizar competições. Além disso, procuramos os pontos em que se pratica o esporte. Hoje, temos também os malabaristas, os mais habilidosos, que fazem apresentações. Estamos fechando o projeto Pode Crer com o governo do estado, que visa a recuperação de usuários de drogas e também permitir a prática de esporte dos portadores do HIV”, diz Carlos Henrique, o Preto C, coordenador de esportes da Ong.
Hoje, além da Praça da Glória, outros 12 pontos – Vale do Jatobá, Praça da Igreja no Bairro Milionários, Praça da Saudade, Bairro Rio Branco, São Benedito, Morro Alto, Betim, Bairro Teresópolis, Bairro Água Branca, Bairro Eldorado, Sarzedo e Jardim das Rosas – recebem jogos nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados.
Na Praça da Ecologia, no Vale do Jatobá, está um dos mais animados grupos, pois lá se concentra o maior número de malabaristas. Elson da Silva, de 27 anos, é o Chiquinho; Pablo Estevão da Silva, de 25, é o Pet; Rafael Vinícius, de 16, e Ernane Silva, de 32, são alguns dos reis do malabarismo. Cláudio Cândido é um dos que usam o rap para mostrar seu talento com jogadas que desafiam as leis da física.
Cada um tem uma história diferente. Chiquinho diz que joga por pura diversão. Apesar de praticar há um ano apenas, é um dos ases. Faz coisas incríveis, de deixar tonto quem assiste a uma de suas exibições. Pet joga há 8 anos. “Aprendi assistindo a vídeos dos Estados Unidos. Aí, comecei a imitar.”
Rafael também joga há um ano. “Eu vi o pessoal fazendo as manobras aqui e deu vontade de fazer. Eles me ensinaram e me apaixonei pelo jogo.” Ernane tem uma história diferente. Ele começou em clube. Jogou no Atlético e no Ginástico. “Comecei com 17 anos. Devia ter procurado um clube antes, mas fiquei esperando. Aí ficou difícil. Mas tinha a pracinha do bairro. Foi quando fiquei sabendo do basquete de rua e do malabarismo. É apaixonante.”
Hoje são 325 jogadores cadastrados na Cufa. Com passagem por clubes, como o Ginástico, são muitos, caso, por exemplo, do time Os Robervais, formado por Aranha, Solón, Gilberto, Flávio, Ângelo e Eduardo. Por falta de patrocinador, não puderam jogar no adulto. E durante as competições ocorrem, em meio aos jogos, shows de hip-hop, com as bandas 4 Apóstolos, Sem Meia Verdade, Ideologia Feminina, além de uma batalha de MCs. O esporte e arte, no basquete de rua, andam lado a lado.
A rua virou quadra
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